segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A bruxa e o bigode

O céu esta noite parecia um papel cinza com incríveis manchas de nankin, as nuvens negras rodeavam a lua deixando a rua escura como breu. A noite já ia avançada quando ela apareceu na esquina, quase correndo em direção a cidade, seu all star barulhento denunciava sua passagem na calçada molhada. Faltava pouco agora, já podia ver ao longe os portões da estação, fortemente iluminado por luzes incandescentes que serviam de palco para mil bichinhos noturnos minusculos e uma grande mariposa que batia na lâmpada com um barulho agourento.
Entrou. Já era tarde e apenas algumas pessoas esperavam o trem, todas em um estranho estado de alerta, meio atentas, meio perdidas em seus próprios problemas. Observando a pequena menininha passar por elas sem dar muita atenção, mas conscientes de sua presença... ela sentou num banco vazio agarrada a sua mochila colorida e começou a observar pequenos detalhes corriqueiros daquelas pessoas. Uma mulher gorda com sandália de plástico amarelo, uma outra, magra e desengonçada tentava dar conta de duas crianças adormecidas em seu colo, três homens de bermudas coloridas, um velhinho de boina.... Com um som estridente e distante um sino anunciava a chegada do trem, ela correu para um bom lugar da plataforma vazia, entrou pela sua porta de sempre sentando no banco de sempre, o vagão estava vazio exceto por um homem, velho e de aparencia peculiar. Sua pele era morena e mal tratada, como se a muito tempo fosse curtida ao sol sem muito cuidado e exibia um incrível bigode grisalho quase todo branco e um quepe muito alinhado de marinheiro. Suas roupas completavam a estranheza do homem como peças erradas de um quebra cabeça forçadas a se encaixar, uma camisa bege meio justa e de mangas curtas fazia par com uma calça marrom boca de sino um cinto com uma enorme fivela dourada e um sapato preto muito lustrado. Ela ainda estava observando o velho que provavelmente saiu de alguma história fantástica quando outra coisa chamou sua atenção: uma velha. Poucos segundos antes da porta fechar ela entrou, e junto com ela uma arrepio que nada tinha a ver com o ar condicionada levantou os cabelos da nuca da menininha. A velha era alta, magra e um pouco corcunda, uma cabeleira desgrenhada caia pela suas costas, seu queixo pontudo e suas entradas acentuadas davam a seu rosto o formato perfeito de um coração, e o nariz era grande e curvado como se não aguentasse o peso da grande verruga em sua ponta, olhos fundos e pretos, contornados por grandes olheiras roxas absorviam cada detalhe do ambiente e sua boca muito fina parecia apenas um risco de cor naquele rosto terrível. Ela estava coberta por uma capa preta que cobria todo seu corpo até o pé. A manga de sua roupa estava arregaçada, deixando a mostra uma espécie de tatuagem que cobria todo seu braço até o fim de seus longos dedos longos e cruéis e na outra mão ela carregava uma pequena bolsa de couro marrom marcada com os mesmo símbolos de seu braço. Mas, o que tornava a cena mais apavorante, a mulher segurava em sua mão livre uma garotinha de mais ou menos 5 anos e afundava suas unhas pretas em seu bracinho de uma forma aparentemente dolorosa. A velha olhou para a menininha que rapidamente desviou o olhar, agarrou sua mochila e inquieta e preocupada se encolheu em seu assento próximo a janela observando a mulher (que mais parecia uma bruxa) e a criança sentada em seu colo, numa discrepancia de informações. Ela não sabia o que fazer, olhava para o velho esquisito esperando dele alguma atitude... a tensão dominou o vagão, agora em movimento... ele lia atendo um livro grosso de capa verde... ela estava sozinha em suas supeitas e nada podia fazer senão esperar, atordoada por parecer estar perdida no meio de uma história fantástica.

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